«Não há machado que corte a raiz ao pensamento»
2006 foi um ano difícil para Cabinda. Independentemente das opiniões de
cada um, a realidade é que os êxitos atingidos na Holanda em 2004 ruíram
completamente, e retrocedeu-se a um ponto ainda mais complexo que nas
vésperas da fusão das FLEC’s (Frente de Libertação do Enclave de
Cabinda), quando Nzita Tiago e Bento Bembe decidiram unir a FLEC/FAC e a
FLEC Renovada, e consequente criação do Fórum Cabindês para o Diálogo,
FCD.
Cabinda está hoje dividida. A FLEC renascida em 2004 desmembrou-se, o
FCD vive uma bicefalia, e a igreja repudia os seus pastores. Entretanto
a população do enclave é obrigada a absorver as versões, posições,
críticas e garantias de cada uma das partes.
Enquanto uns, ex-guerrilheiros, afirmam, por conveniência própria, que a
resistência já não existe, os guerrilheiros activos confirmam a sua
existência, e permanecem nas matas, provando que a paz em Cabinda,
especialmente na floresta, é precária ou inexistente.
Durante décadas o governo angolano do MPLA recusou-se a reconhecer
oficialmente a existência da FLEC. Hoje vivemos uma fase cíclica e
paradoxal desta história, onde ex-resistentes não reconhecem os actuais
resistentes. Mas o tempo obrigará aqueles que assinaram os Acordos no
Namibe a reconhecerem a existência de uma resistência activa, tal como o
MPLA reconheceu a existência dos signatários do Memorando de
Entendimento.
Aqueles que se abraçaram em 2004 na Holanda, pondo fim às divisões e
criando o FCD, voltaram as costas em 2006, e reciprocamente negam a
legitimidade a uns e aos outros. Todavia o Fórum Cabindês para o
Diálogo, FCD, foi criado por um grupo de homens, Nzita Tiago, Bento
Bembe, Raul Tati e Agostinho Chicaia e só estes têm autoridade conjunta
para o transformar, ou seccionar. Qualquer outra metamorfose que não
parta dos seus fundadores é uma adulteração do já designado FCD de 2004.
Talvez, dada a proporção das divisões no Fórum Cabindês para o Dialogo
de 2004, seja necessário em 2007 criar um Fórum para o Dialogo Cabindês,
e pôr um fim definitivo às exclusões e cisões no seio das personalidades
cabindas que contribuíram para a construção de uma história e de um
ideal vivo.
A igreja católica terá de rever as suas posições, e reconhecer o valor
daqueles que lutaram sempre pelo povo ao qual pertencem. Sob o risco de
ridicularizarem a Palavra de Cristo que serviu de arma a Desmond Tutu,
Ximenes Belo, e mesmo a Bento XVI quando o seu país se encontrava
entregue a uma das mais sanguinárias ditaduras da história do século XX,
pautada pela exclusão, racismo e depuração.
Por fim, a Mpalabanda existe! E perdurará. Os tribunais podem decidir a
sua extinção, porém em Cabinda Mpalabanda é um «verbo» e uma «atitude»,
e tal como contava uma canção em Abril de 1974 «não há machado que corte
a raiz ao pensamento».
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